Primeiras Estorias by Joao Guimaraes Rosa

Primeiras Estorias by Joao Guimaraes Rosa

Author:Joao Guimaraes Rosa [Rosa, Joao Guimaraes]
Format: epub
Published: 2010-02-07T20:38:46+00:00


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O cavalo que bebia cerveja

E

ssa chácara do homem ficava meio ocultada, escurecida pelas árvores, que nunca se viu plantar tamanhas tantas em roda de uma casa. Era homem estrangeiro. De minha

mãe ouvi como, no ano da espanhola, ele chegou, acautelado e espantado, para adquirir aquele lugar de todo defendimento, e a morada, donde de qualquer janela alcançasse

de vigiar a distância, mãos na espingarda; nesse tempo, não sendo ainda tão gordo, ele: caramujo, até rã, com as braçadas de alfaces, em-de fazer nojo. Falavam que

comia a quanta ímundíbebidas num balde de água. Ver, que almoçava e jantava, da parte de fora, sentado na soleira da porta, o balde entre suas grossas pernas, no

chão, mais as alfaces; tirante que, a carne, essa, legítima de vaca, cozinhada. Demais gastasse era com cerveja, que não bebia à vista da-gente. Eu passava por

lá, ele me pedia: - "Irivallni, bisonha outra garrafa, é para o cavalo.. ." Não gosto de perguntar, não achava graça. As vezes eu não trazia, às vezes trazia, e ele me indenizava o dinheiro, me gratífíoandq. Tudo nele me dava raiva. Não aprendia a referir

-meu nome direito. Desfeita ou ofensa, não sou o de perdoar - a nenhum de nenhuma.

Minha mãe e eu sendo das poucas pessoas que atravessãvamos por diante da porteira, para pegar a pinguela

-do riacho - "Dei'stá, coitado, penou na guerra.. ." -minha mãe explicando. Ele se rodeava de diversos cachorros, graúdos, para vigiarem a chácara. De um, mesmo não gostasse, a gente via, o bicho em sustos, antipático - o menos bem tratado; e que fazia, ainda assim, por não se arredar de ao pé dele, que estava, a toda a hora, de desprezo, chamando o endiabrado do cão: por nome "Mussulino". Eu remoía o rancor: de que, um homem desses, cogotudo, panturro, rouco de catarros, estrangeiro

às náuseas - se era justo que possuísse o dinheiro e estado, vindo comprar terra cristã, sem honrar a pobreza dos outros, e encomendando dúzias de cerveja, para pronunciar a feia fala. Cerveja? Pelo fato, tivesse seus cavalos, os quatro ou três, sempre descansados, neles não amontava, nem agüentasse montar. Nem caminhar,

quase, não conseguia. Cabrão! Parava pitando, uns charutos pequenos, catinguentos, muito mascados e babados. Merecia um bom corrigimento. Sujeito sistemático, com

sua casa fechada, pensasse que todo o mundo era ladrão.

Isto é, minha mãe ele estimava, tratava com as benevolências. Comigo, não adiantava - não dispunha de minha ira. Nem quando minha mãe grave adoeceu, e ele ofertou

dinheiro, para os remédios. Aceitei; quem éque vive de não? Mas não agradeci. Decerto ele tinha remorso, de ser estrangeiro e rico. E, mesmo, não adiantou, a santa

de minha mãe se foi para as escuridões, o danado do homem se dando de pagar o enterro. Depois, indagou se eu queria vir trabalhar para ele. Sofismei, o quê. Sabia que sou sem temor, em meus altos, e que enfrento uns e outros, no lugar a gente pouco me encarava. Só se fosse para ter a minha proteção, dia e noite, contra os íssos e vindiços. Tanto,



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